Este texto é de um amigo meu. Com a devida autorização, exponho a sua opinião. Muito bem apresentada, clara, objectiva e rigorosa, partilho-a plenamente.
A prova acabada de que este acordo não vem uniformizar nada é o facto de dar lugar a alterações facultativas.
É óbvio que a uniformização é o objectivo. Por que outro motivo envolveria as várias nações lusófonas? Por que razão haveríamos então de nos aproximar da escrita do país de expressão portuguesa mais populoso e influente? Um dos mentores do Acordo dizia que assim resolvemos muitos problemas porque muitas vezes na União Europeia lhe diziam que não sabiam que português utilizar nos documentos oficiais, o português europeu ou o brasileiro. Como é possível essa cavalgadura não perceber que o Acordo não resolve nada? Porque as duas variantes podem ter uma grafia uniforme, mas continuam a ser diferentes no vocabulário e na gramática. Os eurocratas continuarão sem saber se vão usar "polaco" ou "polonês", "nazi" ou "nazista" (apenas dois exemplos de vocabulário), "se resolveu" ou "resolveu-se" (um exemplo de gramática).
Quanto mais estudamos as línguas, mais nos apercebemos que elas são como organismos vivos - evoluem constantemente, crescem, multiplicam-se, diversificam-se, sempre à sua maneira, sem podermos controlá-las. As línguas têm as suas próprias regras, que não são impostas, não vêm de fora, são-lhes inerentes (as gramáticas não são imposições aos falantes; são antes a descrição daquilo que a maioria dos falantes consideram correcto e aquilo que a maioria rejeita). Este Acordo é uma aberração por ser uma imposição, uma intromissão de grandes proporções numa língua que deve evoluir naturalmente - algo comparável à introdução de enormes quantidades de poluição num ecossistema. Tal como o nosso planeta perante o resultado do mundo industrial, a nossa língua vai sobreviver, vai adaptar-se, mas vai forçosamente sofrer alterações não naturais que são difíceis de prever.

Uma dessas alterações poderá ser a forma como as pessoas pronunciam as palavras. Talvez as pessoas comecem a dizer "aspêto" em vez de "aspéto" porque a ausência do C e a comparação com palavras como "espeto" a isso podem levar. Eu tenho vontade de passar a pronunciar o C em "aspecto", o P em "óptimo". Porquê? 3 razões. Porque quero justificar o facto de não deixar de usar essas letras. Porque sou teimoso. Porque não quero que as duas línguas que uso percam essa ligação que têm (tinham), esse ponto em comum, a partilha da sua origem. Se em inglês escrevo "aspect", "optimum", "activity" etc, é natural que sinta a falta dessas consoantes no português. E se me disserem "ah mas essas consoantes pronunciam-se em inglês e não em português", digo-vos "e que tal passar a escrever «umano»? O H não se pronuncia.
E por fim... para quem diz que houve outros acordos ortográficos anteriormente, percebam que nunca a dimensão das alterações foi tão grande. Terminei há pouco um livro impresso há 100 anos. A única diferença na ortografia que detectei em mais de 200 páginas foi um "ràpidamente".
Pedro Ramos




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